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Nascera grande num berço miúdo, era rápida e ágil e não demorou nada para ter os joelhos repletos de cicatrizes e os cotovelos em ralados constantes que grudavam nas roupas e perpetuavam casquinhas grudentas que teimavam em não sarar.
Talvez tenhamos voltamos demais, talvez devamos nos ater ao início do quer seria seu espírito na maturidade, porém, como não sabemos exatamente onde todo este complexo processo se iniciou, temos que realmente fazer um apanhado que date os longínquos dias em que ela anda nem sabia falar, nem se expor, nem decidir e nem ponderar.
Comia de tudo até aprender que uma frescurinha ou outra não mata ninguém. Tinha os cabelos compridos até descobrir que piolhos não têm graça e as delícias de poder sair para brincar sem passar pelas agruras das escovas a desembaraçar, decidindo por deixá-los bem curtos, mesmo que pelos próximos 10 anos a confundissem com um menino. Seu irmão mais velho encarregava-se de defendê-la nos casos de necessidade, seu semblante sério e seus olhos que de tão negros era só pupilas grandes e dilatadas fazia os meninos em pânico correr.
Tinha uma imaginação mirabolante (que na verdade a perseguia até os dias de hoje), quando olha para os dedos dos pés recém estalados, pensa nos confinados pés das mulheres chinesas que até o século XIX sofriam dos abusos impostos pelos modelos da perfeição. Existiria a tal da perfeição? Ela deveria ser unidade única e indiscutível, já que o perfeito é um dogma, mas os pés encarcerados destas silenciosas mulheres, considerados perfeitos por sua cultura, desagradavam imensamente quem com tanto prazer movia livremente cada falange comprida de seus dedos dos pés.
Perdia-se constantemente pelos mais tortuosos devaneios. Dos pés das chinesas provavelmente voaria para Milan Kundera e seus risíveis amores, para países cujas fronteiras são feitas de açúcar ao vento e onde o ouro é usado para forjar ferraduras para os cavalos do rei, até por fim, lembrar-se que hoje não deveria pensar e voltar ao princípio de todo o processo.
3
Levantara-se e decidira que um banho lhe cairia bem. Não havia necessidade de grandes pensamentos durante um banho e é comprovado que o vazio se acomoda dentro de nós com muito mais docilidade durante os rituais.
Naquela noite mataria alguém. Não deveríamos ter nos precipitado ao contar a causa de toda esta cerimônia de silêncio e reclusão, mas, o que está feito está feito e uma das coisas que não irá mudar é a decisão resoluta do martírio de sangue que não tardará a chegar.
O Futuro, postado na soleira da porta, estava um pouco entediado por sempre ter de esperar e resolvera sentar-se no chão, não se importando com a poeira dos dias que seu irmão, o Passado, deixou acumulada por lá. Seus cigarros haviam acabado, todavia, ainda tinha um bom estoque de fumo de corda para mascar.
As pessoas desconhecem, mas, o Futuro é na verdade um grande adicto, cuja ansiedade chega a níveis alarmantes que o fazem sofrer de tiques nervosos e incontroláveis desejos orais que resultam em unhas comidas até o limite das possibilidades – sim, o Futuro tem unhas, caspa e tem seus dias de mau hálito também.
O Futuro, nos primórdios dos tempos, quando a vida ensaiava um dia existir, não tinha forma, nem cheiro, nem grandes pretensões. Humanizou-se depois de tão longa convivência com os Homens, já que para os animais, o Futuro é tão desinteressante, e quem realmente lhes interessa é o grande e poderoso e provedor Presente, seu irmão do meio.
Da soleira o Futuro ouvia o barulho da água a correr e podia pressentir, com seus aguçados sentidos, que ela fechava os olhos e deixava a água cair na nuca enquanto abandonava os braços paralelamente ao corpo como quem não tem vontade de nada.
Enganava tão bem! Só não enganava o Futuro, acreditava-o, afinal, é ele que sabe de tudo, já que o porvir está em suas ossudas mãos. Lá fora as nuvens moviam-se com a lentidão felina que precede o bote. O azul constante mesclava-se ao amarelo e ao lilás para fechar-se por fim em um cinza turvo, sólido e agridoce.
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Ela tinha habilidades excepcionais, porém, lhe faltavam às básicas necessárias para o sucesso durante a vida escolar. Era incapaz de gesticular, cantar e trocar risinhos com as amigas durante os clássicos e eternos jogos de coordenação motora das meninas durante as, para ela, intermináveis horas do recreio.
É possível que o ódio tenha surgido nesta época... Se não o ódio, quem sabe a frustração. Da frustração silenciosa para o ódio latente basta o leve estalido de um biscoito da sorte sendo quebrado na sala contígua ou o ressoar das botas enlameadas na grama fofa de um outono chuvoso.
Não gostava de freqüentar as costumeiras festinhas nem se sensibilizava com os apelos dos que queriam que ela fosse ao menos um pouco normal. Era extraordinariamente magra e sentia que suas feições diluíam-se quando se defrontava com um espelho. Essa falta de identidade a assustava, mas, sabia que um dia iria conseguir distinguir com exatidão o reflexo de seu rosto e seus contornos.
Naquele dia ela via com nitidez exagerada todos os seus desenhos e imperfeições. Achara-se bela naquela manhã.
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Para sepultar o passado cultivara os cabelos longos. Estavam agora perfumados e lascivos, embebidos em xampu.
Lembrava-se de um dia em que passeava com a sua avó por uma região naqueles tempos tão calma, andavam por ruas ladeadas de salgueiros e pegavam ônibus elétricos pelo simples prazer de passear pela cidade.
Em uma destes dias, não se recordava se era tarde ou manhã, andava rente a um muro alto, de textura suave como chantili, mas áspero e seco como a língua de um gato velho. Cruzou a fachada tamborilando as imperfeições moldadas em cimento até que, chegando ao fim do muro, constatou que seus dedos sangravam.
Não sentia dor alguma, mas o susto de ver as pontas dos dedos feridas a fez chorar. Chorou copiosamente ante a expressão culpada de sua avó. Alguns dias sentia-se assim: atônita diante das feridas provocadas por sua curiosidade plástica ante o mundo.
6
Terminado o banho, olhou-se mais uma vez. Sorriu com grande satisfação. Como se sentia viva em meio aquele grande vazio! Era hora de preencher, com a calma homeopática que nunca fora o seu forte, as lacunas deixadas por aquele tempo de meditação.
Podia parecer pouco, mas uma noite seguida por uma longa manhã pode ser mais produtiva que meses de introspecção (na verdade ela já vinha em passado por uma quase imperceptível, porém, imutável transformação). Era crescente a angústia e seguidos os dias de calada indefinição. Perguntavam se estava tudo bem, a resposta era invariavelmente evasiva e solúvel como Nescafé em água quente.
O Futuro, que nem sempre é previsível, sendo capaz das maiores façanhas e das grandes viradas, nos surpreende mais uma vez ao pegar uma grande bolsa amarela (cuja existência até então não havíamos notado) e dela tira um vistoso tricô azul. Parecia uma manta, seria talvez um casaco... O que chamava a atenção era a maestria da trama, com pontos precisos e bem acabados, nenhuma volta perdida, nenhum fio pendurado, uma simetria digna de uma entidade como o Futuro.
Vemos um vulto que se esgueira pelas sobras do jardim e se inclina em direção à soleira da porta. É a Morte que veio cumprir com seu inadiável trabalho mais uma vez. Não se esqueceram que esta noite a jovem que seca os cabelos com uma toalha matará alguém.
Ela parece tão serena, até mesmo quem realmente acha que a conhece nos julgará como loucos, já que para todos é impossível que tão doce – eufemismo, mesmo que ao avesso – criatura, fosse capaz de tamanha barbárie como a que dizemos estar por vir.
Mas, como ainda está cedo e vendo um tricô tão bem elaborado, a Morte acomoda-se melhor que pode ao lado do Futuro, seu parente próximo, porém, distante, dadas as diferentes funções exercidas.
Eram freqüentes estes encontros - o Futuro tinha o questionável hábito de manter-se presente quando já não era mais por vir, e não deveria estar mais ali, já que era dada ao Presente toda a responsabilidade do desdobrar - que a morte nem mais estranhava em encontrá-lo ali, na ante-sala do crime.
A Morte masca um chiclete e olha para o horizonte. Aborrecem-na as horas que precedem sua ação. Sabe que deve estar lá com certa antecedência e hoje em dia existe um número tão infindável de entidades, espíritos, seres de categoria questionável e afins, que o trânsito exige que se organize, já que não pode atrasar.
A Morte nunca se atrasa. Esse é seu lema, essa é a sua função, esse é seu sagrado dever e não seria ela capaz de pensar na possibilidade de descumprir com tamanha e valiosa obrigação. Sabe-se lá o que seria dela caso falhasse. Preferia nem pensar. Na verdade desconhecia seus superiores. Chegara a ser atéia por uma época, mas isso fora há tempos e tempos, quando o mundo ainda era viscoso e incerto. Não cabia a ela questionar.
No momento em que se passa esta narrativa a Morte é não só fiel àqueles que lhe enviam, religiosamente, a lista mensal de almas a visitar, como lhes presta as devidas homenagens e reflete sobre seus desígnios com ardorosa gratidão, nas noites púrpuras em seu quarto de dormir. Ser responsável por todas as almas é tarefa digna de comoção.
Quando dizemos todas as almas, estamos incluindo dos seres humanos, pretensiosos que são, pois acreditam serem os únicos detentores de tamanha dádiva, como os moluscos e as bactérias. Ter uma alma não é lá grande coisa, é parte do sistema, nada mais que um simples praxe dos desígnios dos que respiram e devem em intervalos definidos, deixar de respirar. Simples assim.
Para serviços de menor importância a Morte recruta seus assessores diretos, os guardiões das lágrimas derramadas e dos corações partidos que têm tamanha destreza e eficácia que a eles confere todas as tragédias dos coelhos dos campos, o triste fim das mariposas e as almas dos mangues e pântanos. Para as demais e menos significantes, são convocadas as sombras de onde o sol é eterno e fixo na parte mais alta do céu.
Para quem não sabe ou custa a entender, todos têm quem lhes leve a vida e lhes põe para dormir a alma, dos mais reles agentes decompositores de carniças açucaradas até os grandes poetas. O que difere cada um, assim como a sua função, não está em questão e levaríamos centenas de anos, ainda que com a ajuda de gráficos, para explicar todo o elaborado sistema da existência e seus grandes mistérios.
O Futuro faz tricô e a Morte contempla pensativa o tempo enquanto masca seu chiclete de menta.
7
Lá está ela, sentada na beira da cama, as costas nuas ainda molhadas, pensando quem roupa vestir para a ocasião, ou talvez até, se o mais conveniente não fosse realmente manter-se nua, espáduas eretas e coluna em estado de atenção. Um vestido vermelho e um buquê de cravos. Seria interessante se não fosse tão clichê.
Seu irmão mais velho era um tanto calado, sempre o fora, mas era mais calado e mais contemplativo que todos os demais páreas produzidos por aquela família. Uma coisa podemos lhes garantir, aquela família era capaz de gerar um volume recorde e monumental de seres únicos e completamente fora do padrão.
Um velho tio, hoje carcomido pelo tempo e pelas seguidas investidas contra a guarda nacional – era um piqueteiro profissional, podemos dizer - gabava-se de ter descoberto o Walkie Talkie e a bússola solar movida à chuva. Sua maior decepção, porém, era que ninguém lhe dava os devido créditos, como também lhe vitimavam com as mais ácidas chacotas durante as festas anuais e eventuais celebrações, como casamentos, aniversários e não menos animados, funerais.
Sua tia avó pesava 190 kg, peso que ostentava com orgulho, já que emagrecera nos últimos três anos 50 Kg e podia novamente ser transportada no furgão da família sem a necessidade do guindaste portátil elétrico que tiveram que comprar (sob os protestos do tio inventor que dizia ser capaz de desenvolver um muito mais eficiente, econômico e dinâmico usando apenas caixas de ovos e molas recauchutadas de tratores dos anos 30).
Seu primo casara-se com uma cantora de ópera que quebrava todas as taças em todas as festas familiares com seus intermináveis e lancinantes solos agudos de soprano alemã. Ninguém nunca teve coragem de mandá-la se calar e a solução encontrada, depois de anos de seguidos prejuízos, foi optar pelos não tão elegantes, mas seguros e imperturbáveis copos de plástico. A partir de então, puderam até apreciar, com certas restrições os clássicos dramas de outros tempos.
Após esta pequena amostra de talentos familiares para o inusitado, poderíamos considerar um exagero dizer que seu irmão mais velho era um expoente entre tantos casos de desacordo social. Mas ele era. Atentem-se aos fatos:
Só foi falar a primeira vez com 10 anos, após sucessivas e frustradas incursões aos mais variados médicos, especialistas e curandeiros. Quando começou a falar recitava Dostoievski no original em russo.
Com 17 anos falava poucas palavras e todas em esperanto. Aos 25 deixou de falar. Recém completados 30 anos foi para a Ásia estudar e de lá nunca mais voltou. Diz a lenda que encontra-se perdido em algum ponto de Bahrein em um bairro ortodoxo típico em sua capital, Manama.
Ela portanto, era vista apenas como a menina calada sentada sempre na ponta daquele velho sofá.
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Neste exato momento ela olhava as unhas com certo ar de desolação e dúvida. Tinha tudo traçado mas não sabia qual seria o melhor ritual a cumprir. Decidiu manter-se nua, cabelos úmidos colados nas costas e olhos marcados por restos de anos de maquiagem acumulada.
No criado mudo seus instrumentos esperavam o momento oportuno. Estavam limpos, lustrados e cintilavam à luz oblíqua que iluminava o quarto. Uma navalha comprida e fina e uma um pequeno estojo de lâminas caso a navalha viesse a falhar. Era tudo o que precisava, nada viria a faltar.
O chiclete da Morte já está sem gosto e lhe fere as gengivas. Está na hora, não há motivo para esperar. O Futuro, vendo aque a Morte já se levanta empertigada e faz ares de que é hora de atuar, guarda seu tricô e finge que pretende então se retirar. O Presente já está lá dentro, sentado ao lado da moça olhando para ela com certo pesar.
Quem achava que esta noite ela mataria seu amante, seus rivais ou um mero desconhecido se equivocou. Esta noite, lâminas em punho, ela se despediria. Ela conduziria a dança e tiraria a monotonia para bailar.
Rodopiaria pelo salão e silenciosamente, como veio ao mundo – nascera sem ao menos chorar – e segundo o Futuro, deixaria-o para quem sabe um dia regressar como um carpa ornamental ou um urubu que voa magnífico no céu.
Acomodou-se na cama feita com cuidado e pôs-se a trabalhar.
9
O Futuro dera a volta na casa e olhava atento pela janela entreaberta do quarto. Se pudesse, tiraria do bolso esquerdo sua velha gaita e poseria-se a tocar. Mas não queria chamar a atenção, a cena não era sua, devia estar agora mesmo em outro lugar, mas era demasiado curioso e o desenlace do que sempre soube o encantava quando finalmente estava para começar.
Dentro do quarto a Morte postava-se em frente a moça. O Presente sentava-se na poltrona do canto, estando lá simplemente por estar. O Presente estava em toda a parte, mas, era tão efêmero, que logo se evanescia e estava em outro lugar.
A Morte parecia maior, soberba em seu manto branco e seus olhos cor de prata que eram capazes de fazer até mesmo o silêncio parar de respirar, tamanha a sua magnitude e vigor.
A moça abria caminhos com suavidade e precisão. Dissecava em linhas retas e longas a carne de seus braços nus. O sangue gotejava na manta da cama e a tingia de terra e ferro. A Morte conduzia a sinfonia silenciosa dos gestos brandos e atrozes que precede o fim. Uma lágrima escorre da face do Futuro e o Presente simplesmente acompanha, já que lhe cabe apenas o passivo estar.
A moça desliza para o lado e cai. Seu rosto branco meio de lado deixa entrever uma pequena cicatriz no supercílio esquerdo. O Presente olha-a de soslaio e se vai, taciturno e evasivo como veio. Estava lá por que sempre precisa, nem que por um leve momento, sair da cochia e se apresentar mas sabia que aquela noite o espetáculo não era seu.
A Morte aproxima-se dela e com os seus longos cílios acaricia o rosto, o tronco nu, as pernas fortes e os pés torcidos. O Futuro se distancia e à moça presta uma última homenagem: toca em sua gaita uma balada de ninar.
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Quando o quarto se esvazia e seguramente todos já foram embora - o Presente, a Morte e o Futuro - a moça entreabre os olhos e checa com um suspiro: sim, está sozinha. Contempla as feridas nos braços e o sangue já seco. Vai até o banheiro com passos dormentes de quem muito sonhou e toma o mais longo banho de sua vida. Seu corpo arde.
Olha para as mãos que desenhavam um destino que um dia fora o dela. Enganara a Morte, a Vida e o Tempo. Era livre agora. Sabia que iria para onde nunca quisera estar e rebelara-se quando o soubera. Com sua navalha destacara as linhas das mãos e redesenhara-as com bem melhor lhe parecera. Morrera esta noite e esta noite não pertenceria a mais ninguém.
Há quem pergunte: como se pode burlar o perfeito sistema da Vida e da Morte? Era ela, somente ela, que livremente transita entre os mundos, eterna e luminosa, a mulher que trapaceou com deus, que sabe como fazer e prometera jamais contar.
Dizem que é facil reconhecê-la, tem a tez alva de quem leva um susto e cicatrizes em teias nos antebraços nus. Dizem também que contou para o futuro a sua façanha, dele tirou um largo sorriso e casaram-se num dia de primavera.
Até o final dos tempos, exceto ela queira um dia mudar, o Futuro escreve o destino, ela floreia e acrescenta um pouco de sarcasmo e pelas mãos deles nossas vidas irão se desenrolar.