Quarta-feira, Janeiro 24, 2007

A Cláusula Número 5



A Vida fingia que desta vez iria se acalmar quando, sem muita explicação, rebelara-se e decidira por ela que aquele ali não era o seu lugar.

Como a Vida, cujas rédeas seriam nossas, por nosso tão bem vendido livre arbítrio, poderia, desta forma, nos confrontar?

Pois bem, nunca lemos as pequenas e compactas entrelinhas dos contratos que assinamos, assinaremos ou viremos um dia a recusar. No contrato de uso temporário e limitado de nosso corpo presente existe, impávida e poderosa – paradoxo óbvio e desconcertante em relação ao ínfimo espaço ocupado e conseqüente atenção prestada - a Cláusula Número 5.

A Cláusula Número 5 diz o seguinte:

“São de caráter inerente à Vida mudanças bruscas de temperamento, temperatura e pressão. Sendo assim, fica implícita, na assinatura deste contrato, a ciência de que sem maiores explicações, pelo seu simples e bel prazer, a Vida pode, sem explicações burocráticas, teóricas, teosóficas ou até mesmo irracionais, alterar o eixo da existência do contratante.“

“Estas alterações de humor podem causar uma série de transtornos que não poderão ser usados em posteriores processos contra a Vida, já que estão aqui previamente esclarecidas as reais possibilidades de desventuras ou não que poderão acometer o contratante, mesmo que tenha sido adquirido o plano da Felicidade Eterna.”

Na Cláusula Número 6 discorre-se a respeito do termo Eterno, Eternidade e seus desdobramentos, sempre com a intenção de alertar o comprador que, mesmo tendo angariado o melhor dos planos, sempre existe a real possibilidade de tudo naufragar. Ventos mudam, está bem claro no contrato.

Certo dia de sol poderá você deparar-se com as quimeras e fadas da Cláusula Número 5 – que não necessariamente podem ser más, porém, devido ao temperamento sangüíneo da Vida, costumam ser caóticas, inquietas, ansiosas e até mesmo brutais.

Você será então envolvido em um turbilhão de desejos diáfanos que cobrirão seus olhos, como um tule fino e lento, para que você se acostume primeiro ao espanto, antes da cornucópia de acontecimentos se materializar.

A seguir, uma série de contratempos, que poderão, apesar de toda a incerteza, resultar no tão almejado melhor final, darão início a marcha da qual você não terá o reivindicado direito de voltar atrás. A Cláusula Número 5 está impressa, em letras góticas e em ouro acobreado, que o Livre Arbítrio, em certas circunstâncias, não tem absolutamente nada a declarar.

A mocinha não morre, ao contrário do que dizem os médicos e o mocinho se arrepende, dá a volta no carro, levantando a poeira do deserto e retorna aos braços da jovem para dizer quanto a ama afinal. Não perca as esperanças, tudo pode acontecer até o final.

Foi numa tarde não muito distante que as travessuras da Vida revelaram-se para ela. Acreditando na tão afamada estabilidade, plantara planos para todo o sempre no fundo do quintal. Foi ai que veio o temporal.

As raízes ficaram expostas na terra revolvida, o vento arrasou telhados e mostrou leitos de morte e delícias sob a nudez das telhas, que com o vento foram boiar farelentas no canal, a chuva encharcou os cães e umedeceu os ossos gastos dos anciões e o granizo castigou sem dó as costas molhadas das crianças órfãs que viviam no cais da desolação.

Primeiro o céu ficara cinza e inchado, o ar parou, o calor apavorado ali ficou e por dias parecia que seria assim para todo o sempre. Apenas o desconforto, a inadequação e as roupas empapadas de um mundano suor. Foram precisos exatos sete dias para que o mundo viesse abaixo com o céu que desmoronava.

Ela teimava em não acreditar, mas perdera tudo o que havia construído um dia, inclusive suas certezas definitivas, assim como as bem concretadas gentis ilusões. Foram dias de apreensão, medo, fúria e até mesmo um certo rancor. A Cláusula Número 5 havia dela tirado o tão bom e doce torpor.

Quando o inevitável, mesmo que óbvio desde o dia em que o céu estagnou no calor cinzento que precedeu a fúria da natureza, ela constatou que deveria mudar. Varreu a casa, organizou seus papéis, lustrou a prataria e saiu à procura, pois, não sabia bem por que, mas aquele ali não era seu lugar. Não mais.

Da próxima vez que assinar um contrato, leia as entrelinhas, se bem, que, neste caso, as surpresas podem ser boas e lhe garantir um mais venturoso e épico final.

Quanto a ela, comprou uma casa pré-fabricada cujo vendedor garantiu ser indestrutível. Virou cacos esparsos no terremoto do século. Mas dela saiu nossa heroína ilesa, apenas arranhões e um ar de susto que a acompanharia até o término da vida.

Sábado, Janeiro 13, 2007

Não era uma pessoa boa

Não era uma pessoa boa. Era amarga como bitter, apesar de não ter nem mesmo a decência de induzir a embriaguez e a lascívia. Era seca e dura, inflexível e rancorosa como uma rocha que resiste às investidas do mar.

Chutava cães que lhe cruzassem o caminho nas ruas e feria com olhares férreos e insones a memória das crianças que ousavam os olhos com os dela encontrar. Não tinha apego por nada, traço este constantemente confundido com elevação espiritual, mas, logo descartado até mesmo pelo expectador mais desatento. A leveza não a acompanhava.

Trabalhada em uma repartição pública de cidade do interior. Cumpria horários fixos e sua função basicamente era a de dificultar a vida alheia. Tinha como pretexto as sólidas bases morais da burocracia reinante e o respaldo de uma falsa autoridade que exacerbava pisando firme e duro no chão abatido e frustrado do lugar.

Um dia morreu, foi-se sem glória nem desalento, vítima de um acidente destes que acometem a muitos corações desavisados. Foi encontrada estirada e desconexa no banheiro feminino, a sobriedade maculada por um tênue fio de sangue que escorria da testa. Posteriormente soube-se que acertara em cheio a porcelana da pia no momento em que soube que ia morrer.

Não era destas pessoas muito imaginativas, mas, mórbida que era, imaginara algumas vezes seu próprio e cético funeral. Se pudesse acompanhar o seu desfecho final, seria em atitude de espanto, pois, diferentemente de tudo que já havia imaginado, havia pessoas presentes - e o mais espantoso é que alguns se punham a chorar.

Já morta, era sua vez de cumprir com os trâmites legais que envolvem todos os que um dia vieram e, portanto, um dia foram ou irão. No departamento de reciclagem foi banida para o setor dos já estragados de fábrica, cuja carne morta que não dava nem para se lograr. Era simplesmente impalatável até para os organismos de menor classe e mais baixa estirpe

Mas, era necessário desfazer-se dela por mais pesado que o fardo pudesse parecer. A cadeia alimentar é uma seqüência de seres vivos, uns servindo de alimento a outros, sucessivamente. Esta seqüência de transferências de matéria e energia de um organismo para outro não pode simplesmente parar devido ao sabor, odor ou passado da matéria designada a se ingerir.

Foi um caso de sério sacrifício coletivo dos agentes decompositores para devolvê-la ao estado original de pó. São estes nobres operários os responsáveis pela transformação da matéria orgânica em matéria inorgânica. São eles que fazem o grande trabalho sujo de desmantelar tudo que é complexo e já muito utilizado em unidades simples que darão novamente início ao copioso sistema evolutivo.

Estes pobres seres, vítimas do que um dia lhes foi deferido, organizado e hierarquizado – obviamente sem lhes pedir nem sequer uma opinião - por fim deram cabo à tamanha má qualidade de restos, fluidos e órgãos de gosto acre. Caso pudessem, teriam se arrependido quando já era tarde demais: o estrago já havia se consumado.

Quando a natureza se deu conta estava a vida completamente pervertida, infeccionada: vermes soturnos e mal humorados, vermes briguentos cujas larvas já nasciam degeneradas, bactérias neuróticas e fungos esquizofrênicos. O processo de envenenamento foi tão eficiente e imediato que não houve tempo nem mesmo de tentar soar um alerta, caso houvesse um.

Subindo a base da pirâmide foram surgindo alfaces revoltosas, relvas tóxicas e pestilentas, vacas mortíferas e koalas insones e enfurecidos que munidos de ira descomunal foram responsáveis pela desolação de um terço das plantações de eucalipto da Oceania. Daí para as onças, ursos, tubarões e águias foi menos que um pulo.

A cadeia alimentar foi vítima de solene contaminação. Nunca havia sido tão fustigada com tamanha carga de rancor. Nunca houve registros de descompensação dos ciclos, de mutação de genes nem de tamanha balbúrdia e descontrole.

Ditadores já decompostos, padres cujas batinas rescindiam a pecados mortais, bruxas hereges, assassinos em série, capangas de aluguel, enfim, toda a gama de páreas e a mais fina nata da escória que só o homem pode gerar não tiveram a capacidade de chegar aos pés da aberração que era aquela mulher que germinara tamanha destruição e caos.

Não era uma boa pessoa. Simplesmente assim, não era uma boa pessoa e talvez por ressentimento de nunca ter tido a verdadeira oportunidade de fazer o mal, acabou por gerar dentro de si o que seria inimaginável: uma força capaz de provocar o fim dos seres vivos e de todas as suas variantes e espécies.

Quando fores a uma repartição pública, caso vejas uma dama solene na sua medíocre inutilidade, dê a volta, circunde o quarteirão e volte com uma caixa de chocolates. Ela pode ser alérgica, detestar quem para ela deseja favores comprar, porém, oxalá haja ventura na Terra, ela poderá se sensibilizar. Serás, portanto, o responsável pela salvação da vida neste árido planeta. Pense nisso.

Quarta-feira, Janeiro 10, 2007

Ritos e Transformações

Não sabia o quanto lhe custaria àquela noite. Talvez, mesmo que tivesse o poder de antedizer o que será ainda dito e feito, talvez não mudasse nada. Teria, porém, planejado um pouco melhor. Cautela na busca de saídas que abreviem o sofrimento, a angústia e a inevitável sensação de inadequação.

Começou com uma simples vontade de dar de risada e espairecer a vida que andava a passos lentos e monocromáticos. Quem também não colaborava era o sono que teimava em bandear-se em recantos mais inusitados quando na verdade era hora de chegar, ficar e calar. Entretenhamos-nos com o tempo que nos sobra então. Apegando-se a esta máxima, traçou planos desconexos e pôs-se a labutar.

A princípio foi movido pela curiosidade inata que faz dos seres humanos parentes próximos dos gatos - por mais que muitos teimem em contrariar-se diante deste consumado fato cuja veracidade já comprovada não deixa réstias de dúvidas para contestar - depois, pela necessidade atávica de encontrar entre tantos aqueles que são os seus iguais. Tarefa demasiado árdua para aqueles cujo estigma de páreas teima em nunca se apagar.

Encontrou a graça que havia perdido e jogou jogos cujas regras de tão pouco usadas pareciam até mesmo desconhecidas. Entregou-se em pouco tempo aos prazeres das vidas alheias e às delícias da curiosidade que movem o mundo. Tinha diante de si, todas as noites, uma imensidão de vidas, informações, definições, teorias, imagens e confissões que sua bisavó jamais sonharia compreender, nem que fosse o mais breve resumo da ante-sala desta grande conectividade.

A rede encantava-o, as situações que presenciava como espectador invisível - de pequenas e patéticas a até mesmo grandes dramas da existência - inebriavam-no e faziam com que definitivamente sua mente nunca mais dormisse. Pelo menos não com o resto da casa, com as pessoas lá fora, com o cão estirado e com o vigilante que ressonava entrecortado, com o queixo apoiado na madeira dura da porteira de estrada que um dia sonha com o asfalto.

A obviedade da situação que estava por vir não torna a história dela menos poética, pelo contrário, comprova que nem sempre da marginalidade do cotidiano surgem os grandes poetas. Porém, devemos admitir que a situação podia ser previsível e deveras mundana, mas os personagens nela envolvidos eram os mais singulares, daqueles capazes de desarmonizar uma orquestra que por toda a eternidade nunca ousara desafinar, assim como nunca cessara o seu infinito soar.

Encontraram-se me meio ao emaranhado da incerta comunicação por casualidade de destino, por breves coincidências e fortuitos acasos que fazem com que tenhamos cada vez mais a clara certeza da desordenada má distribuição de indivíduos na terra. Falaram sobre coisas importantes, ditaram, em solitária necessidade de afirmação, pseudo-verdades inquestionáveis de sábios há muito tempo convertidos em pó e cuja volatilidade não levantam mais fagulhas nem nos que, em tenra idade, deveriam tentar o comunismo no lugar dos vícios eletrônicos. Falaram amenidades e riram das piadas que poucos então entendiam.

Dos diálogos cada vez mais freqüentes veio a natural necessidade de então se conhecer. Não que não se conhecessem, mas um convívio virtual, por mais íntimo que seja, e por mais calores que possa provocar, carece do olhar que induz ao rubor e do aroma inerente ao tocar. Marcaram um encontro. Local público, a segurança de não se ver a só, não por medo ou desconfiança, mas por ter em rostos desconhecidos a âncora que em desespero podemos jogar ao mar. Foram ao cinema, paixão mútua e território neutro, asséptico, natural.

Não sabia se era recíproco e quais pistas devia lançar, mas queria que a noite se estendesse por anos e que por capricho dos deuses começasse a nevar - a procura de um motivo que os impedisse de deixar a noite passar - . Mas o café terminou, vieram os silêncios e o tchau desajeitado de quem não sabe quando é hora de abraçar. Depois daquela noite, o virtual era sólido, arredio e misteriosamente equivocado. Conjunto interresante, que rendeu mais tantas horas de linhas escritas e longas esperas por respostas, que, mesmo evasivas ou irônicas diziam aquilo que era hora de se falar.

Sempre tem um lado cuja ansiedade ultrapassa os limites do racional e retesa a linha do sossego, mesmo sabendo que está prestes a despedaçar alicerces das casas que o arquiteto ainda sonha em projetar. Deste vem os convites, convites despretensiosamente desinteressados, mas, carregados de angústia e cuja negativa tem a capacidade fazer um dia de sol simplesmente desabar. Ele vagueia acordado e quando dorme, parece estar sempre a fantasiar.

Os encontros foram tornando-se freqüentes até que uma noite foram a um lugar diferente, riram juntos com relaxada tensão e era tudo perfeito para a tão sonhada aproximação. Até então haviam evoluído para abraços quadrados e sorrisos de meia luz. Nada fluido ou não estudado. Queria o contato dos lábios, o contorno dos corpos e os músculos retesados. Queria sentir a vibração da dor que traz o prazer. A noite era longa e tinha tempo para se desembaraçar de seus medos e contornar o resto de timidez que pouca luz ainda deixava aflorar.

Chegaram a ficar muito perto, a compartilhar a respiração e quase se entregar. Quase. Tudo ficou no quase, os atores permaneceram na coxia com medo de atuar e o público boquiaberto presenciou a completa inércia do medo, talvez mútuo, de se magoar. Que triste noite de risos fáceis e lágrimas presas no esôfago. Na hora da despedida um comentário quase honesto em meias palavras, o desentender de quem entendeu e as oportunidades que deixamos para trás. Nunca mais voltaram a se encontrar.

Somos obrigados aqui a voltar no tempo e narrar à primeira desilusão amorosa de uma das nossas personagens. Recebera uma negativa de seu primeiro amor. Amor adolescente, daqueles que suamos frio e sentimos as palmas das mão fagulhar, daqueles que esperamos por horas na janela ou no portão, pelo simples prazer de vê-los passar. Pois em uma noite perfeita, ensaiada e reensaiada em sonhos e devaneios de banhos demorados, o beijo lhe foi negado. Como? Um virar de rosto, um olhar áspero, um rubor seguido de náusea e a acusação que deu origem a sensação de inapropriação, de estar em uma roupa dois números menor, que lhe perseguiu pelo resto da vida.

Isso aconteceu a exatos 10 anos atrás, hoje ele continua multimídiamente conectado e sabe dos prazeres que aquele mundo pode lhe dar. Porém, a experiência lhe trouxe coragem e foi com esta coragem que se expôs ao mundo e defendeu-se dos golpes, do choro da mãe e do escárnio dos que o cercavam ao declarar a quem quisesse ouvir do seu novo amor: um homem como ele cujos sonhos não ortodoxos descombinavam tão harmoniosamente que nunca soubera como pudera viver sem a sua presença ditosa.

Os amores desencontrados lhe provaram que é preciso de audácia e que mesmo temendo a rejeição, mais cruel é a culpa e o ressentimento de quem não fez nada e nem ao menos militou. Mês passado encontrou o seu antigo objeto de horas de irreal paixão. Trocaram beijos lentos, metódicos, ansiosos e serenos. Despediram-se remorso e continuaram suas vidas. Quem sabe como teria sido a vida há 10 anos atrás, quando o constrangimento reinava imponente e a contrição era sempre no imperativo.

Quarta-feira, Janeiro 03, 2007

Com o Futuro à soleira da porta

1


Ela estava acordada há horas, já passara por todos os estágios do sono, preguiça, súbito ânimo e repentina volta do torpor. Agora já havia levantado e estava preparada para o que seria um dos grandes dias de sua vida: não faria nada, pelo menos até o anoitecer.

Sempre tinha tantas coisas a fazer, tantos pensamentos a desenovelar da confusa profusão de idéias e anseios que era o seu normal, tantas tarefas que podiam até ser simples e descomplicadas, mas, que juntas transformavam-se no poderíamos chamar de grande desafio da espécie humana.

Não fazer nada era, portanto, um grande desafio. A começar por não pensar em nada. Esta sem dúvida seria a sua maior batalha, sua grande provação.

Faria o café sem querer saber se as quantidades eram as corretas ou se aquilo era o que ela realmente queria tomar. Não olharia saudosa pela janela tentando recuperar algum sabor perdido de algo que ela nunca nem chegara a provar. Não discutiria: apenas flanaria entre as pessoas com a leveza de quem nunca esteve lá.

Estava pronta para o vazio por que sabia que em breve deveria estar preparada para recomeçar. De novo? Sim, de novo. Certa da impossibilidade de aparar as arestas do seu já traçado destino e obediente ao chamado do Futuro que já havia chegado – estava parado, fumando paciente seu último cigarro à soleira da porta.

Pois vocês sabem que o Futuro desperdiça um bom tempo de sua longa e infinita existência porque sabe que sempre haverá algo por vir e não há motivo para a pressa. Para ele, cruzar o umbral é tarefa do Presente e por vezes, ir embora quando é hora de agir, é deveras penoso e lhe rende horas de terapia no vale daqueles que não podem mudar.

Ela, todavia, podia mudar. Devia mudar. Engraçado, sempre achara que não sobreviveria a idade adulta, tamanha era a falta de definição das suas mal traçadas linhas das mãos e dos comentários evasivos daquela cigana. Tantos anos atrás...

Coisas tão mais importantes para se lembrar e levar em conta. Como podia guardar como bagagem, quando se deve viajar leve, o peso morto de uma revelação velada, não concluída, um comentário vazio de quem só busca uma moeda? Grandes e inúteis mistérios da existência.

Voltando a nossa heroína – porque viver nos dias de hoje exige certa dose de heroísmo, braveza e falta de senso de ridículo também – ela já havia tomado o café e passado no teste da negação dos impulsos frenéticos de cada fibra de seu corpo de ligar o computador, checar a vida lá fora ou até mesmo de voltar para a cama. Estava começando bem.

O que deveria ela fazer se o planejado era o nada? Existir era fazer, estar vivo era produzir, gerar, nem que fossem simplesmente calor e resíduos. Restringir-se-ia, portanto, às atividades básicas de funcionamento e manutenção necessários a quem respira e sonha.

Sentou-se. Acomodou-se. Acomodou-se melhor. Suspiro. Olhar lânguido para a porta, para a mesa, para sua parafernália eletrônica que hoje deveria descansar. Movimentos lentos e detalhados com os dedos dos pés. Múltiplos estalos. Ossinhos se movendo, cartilagens se digladiando, olhar de satisfação.

Já que no momento nada de realmente interessante irá acontecer, vamos voltar um pouco no tempo até que nos seja possível entender a necessidade deste hiato da vida em que ela se encontra agora.

2

Nascera grande num berço miúdo, era rápida e ágil e não demorou nada para ter os joelhos repletos de cicatrizes e os cotovelos em ralados constantes que grudavam nas roupas e perpetuavam casquinhas grudentas que teimavam em não sarar.

Talvez tenhamos voltamos demais, talvez devamos nos ater ao início do quer seria seu espírito na maturidade, porém, como não sabemos exatamente onde todo este complexo processo se iniciou, temos que realmente fazer um apanhado que date os longínquos dias em que ela anda nem sabia falar, nem se expor, nem decidir e nem ponderar.

Comia de tudo até aprender que uma frescurinha ou outra não mata ninguém. Tinha os cabelos compridos até descobrir que piolhos não têm graça e as delícias de poder sair para brincar sem passar pelas agruras das escovas a desembaraçar, decidindo por deixá-los bem curtos, mesmo que pelos próximos 10 anos a confundissem com um menino. Seu irmão mais velho encarregava-se de defendê-la nos casos de necessidade, seu semblante sério e seus olhos que de tão negros era só pupilas grandes e dilatadas fazia os meninos em pânico correr.

Tinha uma imaginação mirabolante (que na verdade a perseguia até os dias de hoje), quando olha para os dedos dos pés recém estalados, pensa nos confinados pés das mulheres chinesas que até o século XIX sofriam dos abusos impostos pelos modelos da perfeição. Existiria a tal da perfeição? Ela deveria ser unidade única e indiscutível, já que o perfeito é um dogma, mas os pés encarcerados destas silenciosas mulheres, considerados perfeitos por sua cultura, desagradavam imensamente quem com tanto prazer movia livremente cada falange comprida de seus dedos dos pés.

Perdia-se constantemente pelos mais tortuosos devaneios. Dos pés das chinesas provavelmente voaria para Milan Kundera e seus risíveis amores, para países cujas fronteiras são feitas de açúcar ao vento e onde o ouro é usado para forjar ferraduras para os cavalos do rei, até por fim, lembrar-se que hoje não deveria pensar e voltar ao princípio de todo o processo.

3

Levantara-se e decidira que um banho lhe cairia bem. Não havia necessidade de grandes pensamentos durante um banho e é comprovado que o vazio se acomoda dentro de nós com muito mais docilidade durante os rituais.

Naquela noite mataria alguém. Não deveríamos ter nos precipitado ao contar a causa de toda esta cerimônia de silêncio e reclusão, mas, o que está feito está feito e uma das coisas que não irá mudar é a decisão resoluta do martírio de sangue que não tardará a chegar.

O Futuro, postado na soleira da porta, estava um pouco entediado por sempre ter de esperar e resolvera sentar-se no chão, não se importando com a poeira dos dias que seu irmão, o Passado, deixou acumulada por lá. Seus cigarros haviam acabado, todavia, ainda tinha um bom estoque de fumo de corda para mascar.

As pessoas desconhecem, mas, o Futuro é na verdade um grande adicto, cuja ansiedade chega a níveis alarmantes que o fazem sofrer de tiques nervosos e incontroláveis desejos orais que resultam em unhas comidas até o limite das possibilidades – sim, o Futuro tem unhas, caspa e tem seus dias de mau hálito também.

O Futuro, nos primórdios dos tempos, quando a vida ensaiava um dia existir, não tinha forma, nem cheiro, nem grandes pretensões. Humanizou-se depois de tão longa convivência com os Homens, já que para os animais, o Futuro é tão desinteressante, e quem realmente lhes interessa é o grande e poderoso e provedor Presente, seu irmão do meio.

Da soleira o Futuro ouvia o barulho da água a correr e podia pressentir, com seus aguçados sentidos, que ela fechava os olhos e deixava a água cair na nuca enquanto abandonava os braços paralelamente ao corpo como quem não tem vontade de nada.

Enganava tão bem! Só não enganava o Futuro, acreditava-o, afinal, é ele que sabe de tudo, já que o porvir está em suas ossudas mãos. Lá fora as nuvens moviam-se com a lentidão felina que precede o bote. O azul constante mesclava-se ao amarelo e ao lilás para fechar-se por fim em um cinza turvo, sólido e agridoce.

4

Ela tinha habilidades excepcionais, porém, lhe faltavam às básicas necessárias para o sucesso durante a vida escolar. Era incapaz de gesticular, cantar e trocar risinhos com as amigas durante os clássicos e eternos jogos de coordenação motora das meninas durante as, para ela, intermináveis horas do recreio.

É possível que o ódio tenha surgido nesta época... Se não o ódio, quem sabe a frustração. Da frustração silenciosa para o ódio latente basta o leve estalido de um biscoito da sorte sendo quebrado na sala contígua ou o ressoar das botas enlameadas na grama fofa de um outono chuvoso.

Não gostava de freqüentar as costumeiras festinhas nem se sensibilizava com os apelos dos que queriam que ela fosse ao menos um pouco normal. Era extraordinariamente magra e sentia que suas feições diluíam-se quando se defrontava com um espelho. Essa falta de identidade a assustava, mas, sabia que um dia iria conseguir distinguir com exatidão o reflexo de seu rosto e seus contornos.

Naquele dia ela via com nitidez exagerada todos os seus desenhos e imperfeições. Achara-se bela naquela manhã.

5

Para sepultar o passado cultivara os cabelos longos. Estavam agora perfumados e lascivos, embebidos em xampu.

Lembrava-se de um dia em que passeava com a sua avó por uma região naqueles tempos tão calma, andavam por ruas ladeadas de salgueiros e pegavam ônibus elétricos pelo simples prazer de passear pela cidade.

Em uma destes dias, não se recordava se era tarde ou manhã, andava rente a um muro alto, de textura suave como chantili, mas áspero e seco como a língua de um gato velho. Cruzou a fachada tamborilando as imperfeições moldadas em cimento até que, chegando ao fim do muro, constatou que seus dedos sangravam.

Não sentia dor alguma, mas o susto de ver as pontas dos dedos feridas a fez chorar. Chorou copiosamente ante a expressão culpada de sua avó. Alguns dias sentia-se assim: atônita diante das feridas provocadas por sua curiosidade plástica ante o mundo.

6

Terminado o banho, olhou-se mais uma vez. Sorriu com grande satisfação. Como se sentia viva em meio aquele grande vazio! Era hora de preencher, com a calma homeopática que nunca fora o seu forte, as lacunas deixadas por aquele tempo de meditação.

Podia parecer pouco, mas uma noite seguida por uma longa manhã pode ser mais produtiva que meses de introspecção (na verdade ela já vinha em passado por uma quase imperceptível, porém, imutável transformação). Era crescente a angústia e seguidos os dias de calada indefinição. Perguntavam se estava tudo bem, a resposta era invariavelmente evasiva e solúvel como Nescafé em água quente.

O Futuro, que nem sempre é previsível, sendo capaz das maiores façanhas e das grandes viradas, nos surpreende mais uma vez ao pegar uma grande bolsa amarela (cuja existência até então não havíamos notado) e dela tira um vistoso tricô azul. Parecia uma manta, seria talvez um casaco... O que chamava a atenção era a maestria da trama, com pontos precisos e bem acabados, nenhuma volta perdida, nenhum fio pendurado, uma simetria digna de uma entidade como o Futuro.

Vemos um vulto que se esgueira pelas sobras do jardim e se inclina em direção à soleira da porta. É a Morte que veio cumprir com seu inadiável trabalho mais uma vez. Não se esqueceram que esta noite a jovem que seca os cabelos com uma toalha matará alguém.

Ela parece tão serena, até mesmo quem realmente acha que a conhece nos julgará como loucos, já que para todos é impossível que tão doce – eufemismo, mesmo que ao avesso – criatura, fosse capaz de tamanha barbárie como a que dizemos estar por vir.

Mas, como ainda está cedo e vendo um tricô tão bem elaborado, a Morte acomoda-se melhor que pode ao lado do Futuro, seu parente próximo, porém, distante, dadas as diferentes funções exercidas.

Eram freqüentes estes encontros - o Futuro tinha o questionável hábito de manter-se presente quando já não era mais por vir, e não deveria estar mais ali, já que era dada ao Presente toda a responsabilidade do desdobrar - que a morte nem mais estranhava em encontrá-lo ali, na ante-sala do crime.

A Morte masca um chiclete e olha para o horizonte. Aborrecem-na as horas que precedem sua ação. Sabe que deve estar lá com certa antecedência e hoje em dia existe um número tão infindável de entidades, espíritos, seres de categoria questionável e afins, que o trânsito exige que se organize, já que não pode atrasar.

A Morte nunca se atrasa. Esse é seu lema, essa é a sua função, esse é seu sagrado dever e não seria ela capaz de pensar na possibilidade de descumprir com tamanha e valiosa obrigação. Sabe-se lá o que seria dela caso falhasse. Preferia nem pensar. Na verdade desconhecia seus superiores. Chegara a ser atéia por uma época, mas isso fora há tempos e tempos, quando o mundo ainda era viscoso e incerto. Não cabia a ela questionar.

No momento em que se passa esta narrativa a Morte é não só fiel àqueles que lhe enviam, religiosamente, a lista mensal de almas a visitar, como lhes presta as devidas homenagens e reflete sobre seus desígnios com ardorosa gratidão, nas noites púrpuras em seu quarto de dormir. Ser responsável por todas as almas é tarefa digna de comoção.

Quando dizemos todas as almas, estamos incluindo dos seres humanos, pretensiosos que são, pois acreditam serem os únicos detentores de tamanha dádiva, como os moluscos e as bactérias. Ter uma alma não é lá grande coisa, é parte do sistema, nada mais que um simples praxe dos desígnios dos que respiram e devem em intervalos definidos, deixar de respirar. Simples assim.

Para serviços de menor importância a Morte recruta seus assessores diretos, os guardiões das lágrimas derramadas e dos corações partidos que têm tamanha destreza e eficácia que a eles confere todas as tragédias dos coelhos dos campos, o triste fim das mariposas e as almas dos mangues e pântanos. Para as demais e menos significantes, são convocadas as sombras de onde o sol é eterno e fixo na parte mais alta do céu.

Para quem não sabe ou custa a entender, todos têm quem lhes leve a vida e lhes põe para dormir a alma, dos mais reles agentes decompositores de carniças açucaradas até os grandes poetas. O que difere cada um, assim como a sua função, não está em questão e levaríamos centenas de anos, ainda que com a ajuda de gráficos, para explicar todo o elaborado sistema da existência e seus grandes mistérios.

O Futuro faz tricô e a Morte contempla pensativa o tempo enquanto masca seu chiclete de menta.

7

Lá está ela, sentada na beira da cama, as costas nuas ainda molhadas, pensando quem roupa vestir para a ocasião, ou talvez até, se o mais conveniente não fosse realmente manter-se nua, espáduas eretas e coluna em estado de atenção. Um vestido vermelho e um buquê de cravos. Seria interessante se não fosse tão clichê.

Seu irmão mais velho era um tanto calado, sempre o fora, mas era mais calado e mais contemplativo que todos os demais páreas produzidos por aquela família. Uma coisa podemos lhes garantir, aquela família era capaz de gerar um volume recorde e monumental de seres únicos e completamente fora do padrão.

Um velho tio, hoje carcomido pelo tempo e pelas seguidas investidas contra a guarda nacional – era um piqueteiro profissional, podemos dizer - gabava-se de ter descoberto o Walkie Talkie e a bússola solar movida à chuva. Sua maior decepção, porém, era que ninguém lhe dava os devido créditos, como também lhe vitimavam com as mais ácidas chacotas durante as festas anuais e eventuais celebrações, como casamentos, aniversários e não menos animados, funerais.

Sua tia avó pesava 190 kg, peso que ostentava com orgulho, já que emagrecera nos últimos três anos 50 Kg e podia novamente ser transportada no furgão da família sem a necessidade do guindaste portátil elétrico que tiveram que comprar (sob os protestos do tio inventor que dizia ser capaz de desenvolver um muito mais eficiente, econômico e dinâmico usando apenas caixas de ovos e molas recauchutadas de tratores dos anos 30).

Seu primo casara-se com uma cantora de ópera que quebrava todas as taças em todas as festas familiares com seus intermináveis e lancinantes solos agudos de soprano alemã. Ninguém nunca teve coragem de mandá-la se calar e a solução encontrada, depois de anos de seguidos prejuízos, foi optar pelos não tão elegantes, mas seguros e imperturbáveis copos de plástico. A partir de então, puderam até apreciar, com certas restrições os clássicos dramas de outros tempos.

Após esta pequena amostra de talentos familiares para o inusitado, poderíamos considerar um exagero dizer que seu irmão mais velho era um expoente entre tantos casos de desacordo social. Mas ele era. Atentem-se aos fatos:

Só foi falar a primeira vez com 10 anos, após sucessivas e frustradas incursões aos mais variados médicos, especialistas e curandeiros. Quando começou a falar recitava Dostoievski no original em russo.

Com 17 anos falava poucas palavras e todas em esperanto. Aos 25 deixou de falar. Recém completados 30 anos foi para a Ásia estudar e de lá nunca mais voltou. Diz a lenda que encontra-se perdido em algum ponto de Bahrein em um bairro ortodoxo típico em sua capital, Manama.

Ela portanto, era vista apenas como a menina calada sentada sempre na ponta daquele velho sofá.

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Neste exato momento ela olhava as unhas com certo ar de desolação e dúvida. Tinha tudo traçado mas não sabia qual seria o melhor ritual a cumprir. Decidiu manter-se nua, cabelos úmidos colados nas costas e olhos marcados por restos de anos de maquiagem acumulada.

No criado mudo seus instrumentos esperavam o momento oportuno. Estavam limpos, lustrados e cintilavam à luz oblíqua que iluminava o quarto. Uma navalha comprida e fina e uma um pequeno estojo de lâminas caso a navalha viesse a falhar. Era tudo o que precisava, nada viria a faltar.

O chiclete da Morte já está sem gosto e lhe fere as gengivas. Está na hora, não há motivo para esperar. O Futuro, vendo aque a Morte já se levanta empertigada e faz ares de que é hora de atuar, guarda seu tricô e finge que pretende então se retirar. O Presente já está lá dentro, sentado ao lado da moça olhando para ela com certo pesar.

Quem achava que esta noite ela mataria seu amante, seus rivais ou um mero desconhecido se equivocou. Esta noite, lâminas em punho, ela se despediria. Ela conduziria a dança e tiraria a monotonia para bailar.

Rodopiaria pelo salão e silenciosamente, como veio ao mundo – nascera sem ao menos chorar – e segundo o Futuro, deixaria-o para quem sabe um dia regressar como um carpa ornamental ou um urubu que voa magnífico no céu.

Acomodou-se na cama feita com cuidado e pôs-se a trabalhar.

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O Futuro dera a volta na casa e olhava atento pela janela entreaberta do quarto. Se pudesse, tiraria do bolso esquerdo sua velha gaita e poseria-se a tocar. Mas não queria chamar a atenção, a cena não era sua, devia estar agora mesmo em outro lugar, mas era demasiado curioso e o desenlace do que sempre soube o encantava quando finalmente estava para começar.

Dentro do quarto a Morte postava-se em frente a moça. O Presente sentava-se na poltrona do canto, estando lá simplemente por estar. O Presente estava em toda a parte, mas, era tão efêmero, que logo se evanescia e estava em outro lugar.

A Morte parecia maior, soberba em seu manto branco e seus olhos cor de prata que eram capazes de fazer até mesmo o silêncio parar de respirar, tamanha a sua magnitude e vigor.

A moça abria caminhos com suavidade e precisão. Dissecava em linhas retas e longas a carne de seus braços nus. O sangue gotejava na manta da cama e a tingia de terra e ferro. A Morte conduzia a sinfonia silenciosa dos gestos brandos e atrozes que precede o fim. Uma lágrima escorre da face do Futuro e o Presente simplesmente acompanha, já que lhe cabe apenas o passivo estar.

A moça desliza para o lado e cai. Seu rosto branco meio de lado deixa entrever uma pequena cicatriz no supercílio esquerdo. O Presente olha-a de soslaio e se vai, taciturno e evasivo como veio. Estava lá por que sempre precisa, nem que por um leve momento, sair da cochia e se apresentar mas sabia que aquela noite o espetáculo não era seu.

A Morte aproxima-se dela e com os seus longos cílios acaricia o rosto, o tronco nu, as pernas fortes e os pés torcidos. O Futuro se distancia e à moça presta uma última homenagem: toca em sua gaita uma balada de ninar.

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Quando o quarto se esvazia e seguramente todos já foram embora - o Presente, a Morte e o Futuro - a moça entreabre os olhos e checa com um suspiro: sim, está sozinha. Contempla as feridas nos braços e o sangue já seco. Vai até o banheiro com passos dormentes de quem muito sonhou e toma o mais longo banho de sua vida. Seu corpo arde.

Olha para as mãos que desenhavam um destino que um dia fora o dela. Enganara a Morte, a Vida e o Tempo. Era livre agora. Sabia que iria para onde nunca quisera estar e rebelara-se quando o soubera. Com sua navalha destacara as linhas das mãos e redesenhara-as com bem melhor lhe parecera. Morrera esta noite e esta noite não pertenceria a mais ninguém.

Há quem pergunte: como se pode burlar o perfeito sistema da Vida e da Morte? Era ela, somente ela, que livremente transita entre os mundos, eterna e luminosa, a mulher que trapaceou com deus, que sabe como fazer e prometera jamais contar.

Dizem que é facil reconhecê-la, tem a tez alva de quem leva um susto e cicatrizes em teias nos antebraços nus. Dizem também que contou para o futuro a sua façanha, dele tirou um largo sorriso e casaram-se num dia de primavera.

Até o final dos tempos, exceto ela queira um dia mudar, o Futuro escreve o destino, ela floreia e acrescenta um pouco de sarcasmo e pelas mãos deles nossas vidas irão se desenrolar.

Terça-feira, Agosto 01, 2006

Nota para um nascimento

















Chegou com dias de atraso, já não agüentávamos mais, que dirá a sua mãe!
Chegou numa tarde fria de inverno;
Daquelas que fazem a gente querer sair na rua de cobertor e pantufas;
Daquelas que trazem consigo desejos de chocolate quente;
Cheiro de orvalho gelado e mel.

No meio do inverno;
Ironia do hemisfério, na época em que o sol é obliquo e tímido,
Quem rege os humores dos que vêm é justamente o sol;
Um sol quente dos trópicos;
Sol que se recolhe antes que à tarde se despeça para a noite chegar.

Que a vida lhe seja leve como um flanar;
Uma brisa de bater de asas;
Um horizonte sempre presente;
Presente como meta e sonho,
Como imensidão e apoio.

Que se lembre sempre das canções de ninar;
Das bruxas e fadas;
Que os duendes venham sempre a lhe acompanhar;
Suba em árvores com a destreza que tivemos mas que hoje em dia se perdeu;
Escale montanhas e ouça os segredos que os ventos deixaram por lá;
Coma muito bolo quente e brigadeiro de colher;
Não se iluda com a escola;
Tenha amigos para a vida toda;
Tenha boa pontaria, mas não a use, excerto quando dela realmente precisar;
Tenha senso de humor, item básico para a sobrevivência;
Seja doce, mas, com um toque de canela e especiarias;
Exerça a sua criatividade, nem que seja pintando as paredes de seu quarto com papel crepom molhado;
Seja obediente;
Ame legumes e verduras;
Saiba pedir informações, quando for grande e estiver perdido;
Entenda que sapatos marrons não combinam com meias vermelhas;
Por fim, seja muito, mas muito, muito feliz.

Sinta-se por nós abraçado, acolhido, amado e bem vindo. Amamos-te com a profundidade do oceano, com tesouros escondidos e distâncias perturbadoras, mas possíveis de superar.

Quinta-feira, Julho 27, 2006

Aqui e lá – Lembranças Atávicas do Tempo em que éramos Nômades.


Um dia aqui foi lá, e lá longe, bem longe, também foi aqui, num tempo longínquo, na verdade nem tão longínquo, mas é assim que o sinto. Aqui é destino e ponto de partida, porto onde convergem rotas e de onde zarpam os que nem mesmo embarcaram.

Porque desejamos sempre estar lá se aqui, que outrora era o tão desejado lá, torna-se o lugar onde ficamos enquanto planejamos a rota para chegar ao lá adiante?

Aqui o inverno não passa férias, nem tão pouco vem porventura nos visitar. Aqui a brisa levanta as cortinas e traz a claridade do dia para dentro do quarto e o cheiro de mar para as nossas manhãs. Aqui a areia invade de mansinho a nossa casa e cobre o chão cansado de fino tule que gruda nos pés e nos acompanha pelo dia afora. Aqui o silêncio tirou férias, foi para o campo espairecer. Aqui a vida é mansa e cobrimos as distâncias com um breve caminhar.

Aqui a serenidade veio,mas com ela veio escondido nas malas o desejo. Desejo que se esgueira nas frestas e se infiltra no alicerces que acreditávamos que sólidos fossem. O desejo de continuar caminhando, o desejo do lá, mesmo quando o aqui já foi meta, já foi destino, já foi mudança de rumo e de ares.

Com o desejo a saudade, a saudade dos sons e cheiros antes familiares, das pessoas queridas, das ruas cujos traçados sabíamos aonde iriam nos levar, do gosto dos almoços de domingo, daquela praia que não está mais lá.

Quando o desejo encontra a saudade para um chá, costumam convidar também a esperança, cuja amiga angústia vem mesmo sem ser convidada. Juntos, planejam voltar para lá, tecem mantas de rumos e organizam as malas mesmo que não tenhamos a intenção de voltar.

Lembranças de um tempo em que éramos nômades – mas queria que o lá fosse simplesmente aqui.

Terça-feira, Julho 25, 2006

A Equação




Teve um dia em que ele não quis escovar os dentes. Simplesmente não quis. Dormiria assim, sem banho, sem desodorante, sem sabonete e que fosse tudo para o diabo. Não lhe diziam sempre para aproveitar a vida, para viver como se aquele segundo fosse o último? Pois então, qual seria o problema de morrer sem banho, cabelo desgrenhado e dentes por escovar?

Daquele dia em diante só comeria pastel de almoço, dormiria tarde, beberia vinho em volumes descomunais, torraria as economias e só leria a coluna de piadas. Trabalharia só quando fosse necessário, dispensaria a empregada, deixaria a grama crescer como na natureza deveria de ser.

Viveu feliz assim por mais de um ano. Crise da meia idade, diziam uns, stress por trabalhar demais, decretavam outros, mas, no geral, eram unânimes quanto à efemeridade daquilo. Só a mãe verdadeiramente se preocupou. Devíamos todos ouvir nossas mães, elas têm sempre a razão. Podem usar bobies, dormir com camisolas desconcertantes, forçar-nos a tomar detestáveis sopas de legumes, são capazes das mais sádicas torturas para que tenhamos as unhas cortadas, a saúde inabalada e a educação em dia, porém, elas são as únicas que tem sempre a razão.

Achavam que uma semana seria normal, um mês um pequeno exagero, dois, três, quatro meses e começaram a também se abalar. Quando completou um ano de total desleixo e hedonismo encontrava-se só. Os amigos, perplexos, haviam-no abandonado: ninguém agüenta por muito tempo, por mais espirituoso que seja, o dono de tamanho mal cheiro.

Alheio a todos os comentários continuava exultante e vivia cada segundo como se fosse o último. Quando sua mãe, até mesmo ela, brava guerreira, desistiu das investidas e resolveu se conformar – depois, é claro, de levar o encardido filho ao médico, doutor, que faço então com ele? O doutor, homem antigo, de linha impecável e nariz aquilino, examinou de cima a baixo e decretou: nada que um banho não resolva, tema não minha senhora, isso já não é de sua alçada veja só a idade do moço, já bem da avançada. Deixe-o assim, uma hora dará por si.

No quinto dia antes do segundo aniversário de sua sábia decisão – para ele, até então, havia sido uma sábia decisão; sentiu-se um pouco mal. O gosto de sorvete, antes tão aprazível, começara a enfastiá-lo, o cheiro de mofo da dobra dos cotovelos também, assim como o atrito dos dentes rugosos contra a língua preguiçosa de quem muito doce comeu.

Teve uma ânsia incrível por brócolis, repolho e arroz integral. Sentiu arrepios de euforia quando se imaginou diante de uma mesa farta de iguarias macrobióticas. Voltou para casa – naquele momento estava no meio da rua, rumo ao correio, pronto para enviar uma carta à mãe que de tanto desgosto mudara de cidade.

Chegando em casa tirou todos os móveis dos cômodos, atulhou a entrada que dava para o jardim, encheu baldes de água e desinfetante, lavou as paredes, as janelas, os parapeitos e até o forro, por mais complicado que aquilo fosse. Tirou a poeira, lustrou as estantes, recolocou tudo de volta ao seu devido lugar. Desentupiu o ralo, areou as panelas, lavou os tapetes e encerou o chão.

Depois de todo trabalho doméstico de anos feito, chegara a sua vez. Foi ao mercadinho da esquina, cujo dono octogenário devia ter sérios problemas olfativos, já que era o único a ainda abraçá-lo e comprou uma soma considerável de xampus, óleos, sais e cremes de massagem. De volta a sua casa, rumou decidido ao banheiro e de lá saiu 4 horas depois, novo homem, três quilos de poeira, suor e remela a menos.

Os amigos aos poucos voltaram, pediram desculpas e foram prontamente desculpados; os dentes demoraram a recuperar a brancura, mas, graças à tecnologia moderna puderam ser recuperados; o corpo que nunca fora lá tão esbelto estava agora de um jovem atleta e do trabalho que praticamente abandonara ia direto para o treino e do treino para a refeição balanceada de lá para o passeio com o cão.

Agora sim, vivia cada segundo como se fosse o último porque não pensava mais naquilo, grande besteira, de ter que se sentir sempre finito. Finalmente era feliz. Morreu vinte anos depois com nenhuma cárie mas com um fígado que a muito já não era mais o mesmo.

Segunda-feira, Julho 10, 2006

Aniversário


Passou-se mais de um ano.
Fato inédito nesta conturbada vida.
Prestes a completar alguns meses depois dos fatídicos 12 meses e nada mudara.

12 meses e impreterivelmente soava o alarme, a eletricidade percorria espinha abaixo se propagando num desejo louco de correr. Para onde? Ora, quando se deseja correr, é para ser sem rumo, sem eira nem beira, sem destino nem saudade, só vontade, vontade de voar. Mas, para espanto meu, 12 meses já completos e o desejo não apareceu. Não mostrou as caras, não planou rente ao telhado, não fez barulhos noturnos remexendo-se sob a minha cama. Nada. Nada mesmo. Apenas o silêncio.

Será a chegada da tão falada maturidade? Teria a vida se cansado de correr e relapsa, se atrasado? O tempo descuidado em relação ao próprio tempo, como um ponteiro vadio que não tem pressa em partir já que voltará ao mesmíssimo lugar? As causas não importam, se for o desleixo do fuso devido ao eterno verão, o eclipse da lua, a queda do índice mundial de barris de petróleo ou azeite, o sono do gato, a combinação inesperada de algarismos, tanto faz.

O que causa a maior estranheza é a calma displicente da minha natureza que deveria estar neste exato momento debatendo-se febrilmente contra estes dias serenos. A ânsia, a angústia, o desejo, nenhum deles plantou-se diante da porta e recusou-se a sair. Nenhum deles me acompanhou até o ponto do ônibus e disse que ali eu não deveria mais estar, que era pouco, raso, inútil, ou qualquer um dos seus argumentos que sempre foram a mim tão persuasivos.

O cotidiano continua colorido, os desafios continuam ousados, não sinto como se o caminho já tivesse sido absolutamente desbravado e que não há mais nada para se aprender. O tédio não reina absoluto e modorrento e o instinto não fez a engrenagem da fuga voltar a funcionar.

Seria a chegada silenciosa dos 30?

Segunda-feira, Junho 12, 2006

Rascunho


Como faz tempo que não organizo minhas idéias, encontro resistência na hora de escrever. Na preguiça e na inércia resigno-me a desenhar esboços mentais, anotações vagas e siluetas de possíveis grandes idéias. Porém, a desvantagem destas modalidades de apontamentos reside no fato de que são todos esquecidos logo após uma noite de sono, um banho quente ou até mesmo um escovar de dentes.

Não que seja fácil escrever, nunca é. As idéias fluem numa velocidade incompatível com a dos dedos que procuram febrilmente acompanhá-las. As letras se embaralham numa seqüência sem nexo de ordens absurdas e teclas trocadas.

Os dias têm corrido sem que eu perceba, as estações são confusas neste sítio onde decidimos morar. As chuvas vieram e foram, agora o sol brilha triunfante mesmo antes dos mais madrugadores ousarem a despertar. Todos os dias acordo num pulo achando que o telefone não despertou, que já é meio dia e que nada desculparia tamanho atraso.

Com o equilíbrio restabelecido e a confirmação que mal saímos da noite, a solução é tomar um belo copo de café e jogar no rosto a água morna que sai da torneira imaginando-a gelada como deveria ser. O relógio da cozinha religiosamente pára no meio da madrugada, aumentando ainda mais a minha falta de norte. A gata exige atenção e comida, entrelaçando as minhas pernas e miando num volume desconcertante para àquela hora da manhã.

Um dia como todos os dias. Um dia em início de semana cuja única novidade digna a ser registrada é a decisão, no momento solene e desafiador, de capturar os rascunhos lisérgicos de minha mente inquieta nas páginas fluorescentes do meu computador. Necessito de um registro, caso contrário, as próximas chuvas virão e terei diluído em esquecimentos todas as minhas conclusões.

Terça-feira, Dezembro 27, 2005

Cinza






















O dia estava cinza. Nunca vira um dia cinza por estes cantos.
Lembrou com saudade do céu descolorido de onde viera. A não-cor sempre fora um motivo de tristeza, agora era a recordação da felicidade contida nos dias, escondida nas horas e vista só depois que já passou. Estranho sentir o que foi, sentir em presente o que é passado. O tempo esconde as mágoas, traz um véu de beleza e leveza ao que um dia não consideraríamos que valeria a pena parar para contemplar. Parar o carro para ver o parque, parar o dia para se atrasar e tomar um sorvete, pararíamos o próprio tempo se o víssemos em presente como ele é lembrado em tempos futuros.

Para a sorte da boa marcha somos tão desapercebidos.

Segunda-feira, Dezembro 19, 2005

Pai















Gostaria de poder contar tudo o que me aflige como quem canta uma cantiga;
Gostaria de dançar sem tocar o chão;
Gostaria de desabafar que sinto muito;
Gostaria de te abraçar sem ter que esperar pelas palavras que desejo ouvir;
Gostaria de aprender a esquecer;
Gostaria de dissolver a mágoa, fervê-la em fogo alto e dissipar seus vapores em um campo aberto.

Desejos de uma mente inquieta, cuja tristeza contida fugiu pela fresta da porta.

Sexta-feira, Dezembro 16, 2005

O Traçado


Ela convivia muito bem com a mágoa. A dor ela já nem percebia. Mas a vida ia como um andarilho ao lado da sensatez, sua sempre companhia.

Um dia ela se viu sozinha, a sensatez tinha sede, foi buscar água, esquecera-se de chamá-la. Um breve momento, um descuido pequeno, um deslize sem intenção.

Ela nunca se vira só, nem mesmo por um instante. A jornada parecia tão longa, a aridez pedia apoio. Enfrentar só a provação parecia demasiado cruel. Mas, foi quando se viu livre, sem apoio, consolo ou reprovação que entendeu de que carecia.

A angústia e o medo, que seguiam de perto os passos trilhados, num acordo silencioso de consentimento e partilha, mudaram de rumo, desnorteados com a ausência da sensatez.

Ela viu-se como realmente era. Era translúcida na luz da manhã. A fortaleza não era segura como parecia, a obstinação seguia vã sem saber qual seu ideal e a maturidade, que dela nunca foi, seguiu seu rumo a enganar aqueles que achavam um dia de fato tê-la.

Da manhã fez-se tarde, com a tarde, um sol macio de primavera. Ela recostou-se e pôs-se a pensar. Se quem de fato era nunca dela foi, cabia agora a ela decidir quem agora seria. Seria a tarefa mais leve e árdua que até então teve pela frente: traçar com linhas seguras o que sempre foi aquarela.

Noites e dias em pensamentos profundos, sonhos coloridos e medos desvendados. Sabia quem era e o que queria. Era quem sempre fora e seria um dia a poeira que levantava da estrada com seus passos agora seguros e largos. Era o que desejava, era quem quer que fosse. Tinha todas as possibilidades.

Rumava para o destino e espero me encontrar um dia com ela.

Quinta-feira, Dezembro 01, 2005

A Novidade


Novidades adoçaram aquela manhã de primavera;
Primavera quente aquela.
Novidades resgataram o encanto esquecido das manhãs daquele tempo antigo, início dos dias, angústia e alegria.

O tempo ficou preguiçoso, deitou-se de lado na colcha e pôs-se a recordar.
Lembrou do minúsculo sapo no fundo da banheira vazia e toda a aventura de tirá-lo dali, do medo do toque de sua pele fria nos nossos pés descalços;
Lembrou das folhas secas dos pinheiros que forravam o chão e cobriam o céu naquele bosque mágico;
Lembrou de quando ganhou um barco;
Da manhã de natal em que o cão subiu na árvore e se banqueteou com os preciosos chocolates, numa confusão de vidro fino quebrado, papel laminado mascado e luzes a piscar;
Da casa de fundos,
De quando todos ainda estavam aqui.

Reviveu toda a juventude, sorriu com alivio para o que via agora.
Não que estivesse no fim da jornada, podíamos dizer que estivesse naquele momento em que ainda se tem muita pressa, mas, que o tempo vivido já nos diz que podemos esperar.

Naquela manhã de primavera ela sussurrou a novidade que fez o dia se reclinar, olhar para a lua que ainda teimava em pairar sobre o céu e sonhar.

Que a vida venha;
Que a vida viva;
Que viva veloz;
Para em uma manhã de primavera;
Contemple pensativa a novidade capaz de fazer o tempo parar para relembrar.

Quarta-feira, Outubro 26, 2005

Final de Tarde



Fim de tarde, momento de silêncio que precede a pressa.

Hora de voltar, hora de não ter mais para onde ir, hora dos que não vivem em função da hora e não entendem porque o ar fica mais denso por volta das seis.

Hora boa de esperar passar, de esperar ficar mais tarde, de esperar a volta da noite e com ela, o vento frio que nos diz a hora de ir dormir.

Quinta-feira, Outubro 13, 2005

Seu Lugar no Mundo


Ela não se lembrava mais aonde ela pertencia. Seu lugar no mundo, seu porto seguro; Seu lugar para rir; chorar; esperar o tempo passar...

Não sabia onde gostaria de passar a velhice.
Adequara-se tão bem que não se encaixava mais.
Sentia-se firme, mesmo que insegura, na balbúrdia das grandes cidades; sentia-se só, ainda que calma, nos campos silenciosos; gostava do mar, mesmo com medo da tempestade...

Onde então era o seu lugar?

Um jardim com flores com aroma de baunilha;
Uma horta de ervas e chás;
Um lago de águas verdes e profundas;
Um sótão onde guardar as lembranças;
Uma encosta onde se perde o fôlego;
Um afloramento onde o vento embaraça os cabelos;
Uma vista para o mar;
Uma biblioteca de três andares;
Uma lareira;
Inverno em um dos cômodos;
Primavera lá fora.
Seria este o seu lugar.

Como encontrar quando não sabemos o que procuramos;
Onde guardaram os mapas;
Quem poderia indicar como chegar?

A mala pronta debaixo da cama e o instinto de um dia voltar;
Ou quem sabe;
Seguir mais além;
Até encontrar.

Sexta-feira, Setembro 23, 2005

Uma Menina







Uma Menina

Ela tinha doze anos, dormia na calçada áspera da fachada velha. Sono sem sonhos, sonhos de quem quer apenas se render ao sono. Mas não pode. Ela temia o escuro, os amigos, os inimigos que não sabia ao certo quem eram, temia o frio, a chuva e a imensidão. Por isso se encolhia, como o filhote de vira-lata que se apoiava nela nessa mesma mistura de medo, dor, confiança e carinho.

Naquela noite ela sabia que algo estava fora do normal. Talvez pq nunca nada estivesse antes normal, tudo sempre fora um caos de fugas imprevistas e abrigos desesperados. Então, sempre era noite, sempre era frio, sempre algo estava prestes a acontecer.

Ela tinha quem a protegesse, quem esmurrasse os moleques que batiam, que machucavam, que corriam. Ela tinha uma velha senhora, mas isso já faz muito tempo, a tuberculose levou. Ela tinha o pipoqueiro enquanto era menina ainda. Ficou um pouco menos menina, viu que voltara a não ter ninguém. Não se pode confiar nos homens... Agora ela tinha o cão, a lua e as luzes amarelas da cidade.

O céu avermelhado da cidade, céu sem estrelas, céu sem poesia, cercado de prédios, sem horizontes. O horizonte era cinza-concreto dos fundos daquela casa velha lá. O chão era frio e úmido, a fome era a mesma de ontem, da semana passada, de anos atrás.

O cão se abanou, coçou as pulgas pro lado, mordeu de levinho a ponta do rabo sarnento, cheirou o sono leve da menina. Acordada, ela se levantou e tomou a decisão que mudaria sua vida: seria ela o cão e ele a menina. Dormiria ela com as pulgas, daria ela o alarme, tomaria sol e seria fiel. De dia, ele, o cão, pediria, tomaria, fugiria.

Deu tão certo que hoje ela comanda uma rede de cães adestrados a serviço da miséria. A delinqüência hoje dorme enrodilhada sob o calor do sol na calçada enquanto os cães batalham com muito mais eficácia a lida diária.

Quem resiste a um pedido sincero de um cão no farol?

As Lembranças






















Queria falar de amenidades, de coisas doces e antigas, de lembranças que virão, de dias vermelhos de outono, de dias azuis de inverno, de um cheiro de açúcar queimado.
Queria dançar as danças, prestar os ritos, olhar para o céu.

Sem que perceba uma vaga voz que vem e voa, sussurra, canta nos ouvidos até dos que não prestam mais a atenção. Diz ela que a vida vem.
E vai embora, como quem nunca esteve, como um sopro, um vento perdido, uma porta que bate.

Queria falar de amenidades, mas agora se esqueceu;
Ficou a dúvida, veio a saudade;
Um brilho triste no canto daquele olhar.

Quinta-feira, Setembro 15, 2005

A Dedicação


Para quê dedicas todo o teu tempo?

Para onde convergem suas mágoas tão bem guardadas?

Qual será o teu segredo?


Ocupa-se com calma e determinação;

Parece desassossegar-se;

Retira-se do mundo como quem toca piano.


Seus olhos seguem determinação reta, suas mãos uma inquietação ritmada, seus ideais escondem-se nas quinas angulosas de sua mente.

Diria um dia que é feliz;

Noutro talvez quem sabe;

Amanhã será, um dia, uma certeza.


Hoje se ocupa demais para voltar-se e responder questões tão irrelevantes diante das horas que passam.

Segunda-feira, Setembro 12, 2005

A Idoneidade


Sou uma pessoa horrível;

Tenho pensamentos deploráveis;

Atitudes condenáveis;

Julgo quem não teve chance de se defender.

Tenho idéias fascistas;

Discursos conformistas;

Frases feitas;

Manipulo informações.

Traí meus ideais;

Roubei inspirações;

Tive preguiça de pensar;

Matei o que nem tinha nascido.

Já trapaceei;

Menti;

Adulterei as provas finais.

Apesar de todas as evidências deporem contra mim;

Ainda tenho quem acredite que resta algo para se salvar;

Ainda tem os que não jogariam uma criatura assim, nem tão vil, em alto mar em caso de naufrágio;

Ainda restam os que não temem me amar.

A moral da história é imoral;

Mentiremos uns aos outros;

Mentiremos até mesmo nossos defeitos, afinal, seres bons demais não surtem efeito!

Sexta-feira, Setembro 09, 2005

As Noites












Sozinha no quarto;

A réstia luz não convence o escuro que é noite;

A gata malhada;

Ainda projeto de gata;

Pequena que ronrona em minha omoplata.

Os livros já foram lidos, a dança perdeu a graça, o vento agora é frio, saudades do gosto de marzipã...

Terça-feira, Agosto 30, 2005

O Fabuloso Reino das Possibilidades


Imagine um reino onde não existam fronteiras, onde o horizonte por vezes é ondulado, onde os pássaros decidem sozinhos qual será seu repertório, onde o arco-íris se dá o luxo de ser só azul.

Esse é o fabuloso reino das Possibilidades.

Caso você não queria nele entrar, por favor, não se preocupe com metas e sonhos, sua vida será linear como deveria ser. E ponto.

Caso queira se aventurar, o reino abrirá seu sótão mágico e você poderá desfrutar de todas as possibilidades que você nem sonhava que a vida poderia oferecer.

Um encontro com a Dorothy em Oz;
Uma conversa sádica com Baudelaire;
Um café quente em Marte;
Um elixir em Avalon;
Um cheiro doce de amêndoas. Sempre.

Caso pense que nunca pertenceu ao Fabuloso Reino; enganado está. Nele passou, tempos atrás, no tempo em que dormia com a luz do corredor acesa, no tempo em que ainda fugia de casa e voltava meia hora depois, no tempo em que ovos de chocolate não eram apenas doces, eram mágicos...

Se não se lembre então do caminho de como voltar, me desculpe, não poderei te ajudar. Posso dizer que de certo ainda tens guardado um resto de Supercalifragilisticexpialidocious.
Onde?
Perguntas demais!

As Férias



O Sol ardia a areia;
Areia quente que colava no rosto;
Rosto com cara de colônia de férias;
Férias tardias, lembranças distantes, bolo de chocolate pela manhã.

No primeiro dia lembramos do que havíamos nos esquecido;
No segundo dia corremos ainda mais;
No terceiro dia levamos um susto;
No último dia comemoramos;
Comemoramos até o dia ser noite e se fazer dia de novo.

Agora todos voltamos;
Ombros corados;
Corpos cansados;
Amigos nas malas.